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MOSTRA MÃE PRETA RESGATA MEMÓRIA DA ESCRAVIDÃO, MATERNIDADE E FEMINISMO

Exposição na Galeria Pretos Novos trabalha sobre obra de artistas como Jean-Baptiste Debret e Johan Moritz Rugendas

As conhecidas imagens das amas-de-leite negras, registradas desde meados do século XIX ao início do século XX, são o ponto de partida da pesquisa das artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa para a exposição Mãe Preta, com a curadoria de Marco Antonio Teobaldo, na Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea, do Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos (IPN), na Gamboa.

A exposição Mãe Preta integra o Circuito Cultural Rio, idealizado pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio para a programação cultural dos períodos Olímpico e Paraolímpico, de maio a setembro de 2016. A mostra, também parte da programação oficial do FotoRio 2016, traça elos e ressonâncias entre a condição social da maternidade durante a escravidão e as vozes de mulheres e mães negras na contemporaneidade. A exposição reúne obras em fotografia, gravuras, vídeo e instalações criadas especialmente para o IPN, que abriga sítio arqueológico do Cemitério dos Pretos Novos, no qual milhares de africanos escravizados recém-chegados ao País foram enterrados à flor da terra, na primeira metade do século XIX.

“A exposição é uma reinvenção poética da iconografia relacionada às mães pretas dentro de uma linguagem contemporânea, tendo como ponto de partida imagens do acervo do Instituto Moreira Salles e releituras de livros com gravuras de Jean-Baptiste Debret, Johan Moritz Rugendas e outros artistas. Por meio de intervenções nessas imagens com objetos óticos, como lupas e vidros, destacamos a complexidade das relações das amas-de-leite com as crianças brancas de seus senhores, e das mulheres escravizadas e seus próprios filhos. De tão conhecidas, estas imagens são vistas de forma superficial e não revelam as histórias de violência sofridas por estas mulheres”, explica Patricia Gouvêa.

Marcas naturais do tempo em reproduções de negativos de Marc Ferrez são aproveitadas para simbolizar cicatrizes expostas em composições fotográficas, em substituição a cópias perfeitas. Trata-se de uma estratégia artística com o objetivo de realçar o salto temporal entre o passado e o presente e as invisibilidades, lacunas e silêncios vividos pelas retratadas. “Nosso posicionamento é feminista no sentido de dar visibilidade às histórias das mulheres, além de questionar o motivo das lacunas históricas em relação ao papel fundamental da mulher negra na nossa história social e visual”, afirma Isabel Löfgren.

Marco Antonio Teobaldo, curador da exposição, explica que as artistas trabalharam em apurada pesquisa nos últimos 18 meses, que desencadeou série de reflexões e perspectivas da mulher negra no Brasil. As autoras optaram por dar voz a estas mulheres, por meio de um trabalho em vídeo, para que elas possam falar sobre maternidade, discriminação, memória, ancestralidade e outros temas. Como parte de um trabalho mais conceitual, estatísticas de mortalidade infantil da época de funcionamento do Cemitério dos Pretos Novos serão comparadas com dados atuais.

A exposição deixará como legado uma reformulação da biblioteca do IPN, com nova seção feminista que reunirá títulos de autoras negras e obras sobre protagonismo negro. Além disso, uma área voltada à literatura infanto-juvenil destacará títulos onde crianças negras são protagonistas. As paredes da biblioteca terão retratos de heroínas desde Anastácia, Tereza de Benguela e Nzinga de Angola às feministas afro-brasileiras Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, mulheres que representam as conquistas sociais, luta e resistência da mulher negra no Brasil.

O trabalho contribui para o debate sobre a memorialização da escravidão, que ganhou força no Rio de Janeiro desde a descoberta do sítio arqueológico do Cais do Valongo, em 2010, com o resgate de parte da história da cidade e do Brasil até então soterrada. A programação da exposição inclui palestras e oficinas com historiadores da escravidão, escritoras e artistas negras que ativarão o espaço com reflexões sobre a representação de raça e gênero na sociedade. Uma publicação em papel jornal, suporte muito usado pela imprensa abolicionista, será distribuída gratuitamente.

Circuito Cultural Rio
Idealizado pela Prefeitura do Rio, o Circuito Cultural Rio oferece mais de 700 atrações, selecionadas e patrocinadas por meio dos editais da Secretaria Municipal de Cultura, apresentadas em mais de 100 espaços culturais por toda a Cidade, além dos eventos ao ar livre. Com peças de teatro, exposições, shows, espetáculos de dança, atrações circenses, eventos de gastronomia, manifestações de rua, saraus, bailes e afins, o Circuito Cultural Rio vai possibilitar uma experiência integral da diversidade cultural carioca.

Serviço Mãe Preta
Exposição de Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa
Curadoria de Marco Antonio Teobaldo
Local: Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea
Rua Pedro Ernesto 32/34,Gamboa, Rio de Janeiro, RJ
Telefone: (21) 2516-7089
Data: Abertura 23 de julho às 15h
Visitação: 25 de julho a 25 de setembro
Visitação: Terça a sexta-feira, das 13h às 19h | Sábado, das 10h às 13h
Sugestão de acesso: Metrô Central e Parada Utopia Aquario do VLT
Entrada franca
Livre